"A não ser que se tenha o caos dentro de si, não se pode dar à luz uma estrela que dança." - Nietzsche

sábado, 7 de agosto de 2010

Viver sem alma... ainda é viver?


Outro dia assisti ao ótimo filme “Almas à venda”, que tem aquele ator do igualmente ótimo “Sideways”, Paul Giamatti, que acaba dando um toque cult a esses filmes.  Meio que interpretando ele mesmo, em uma tremenda crise de angústia, decide se livrar do peso interior, extraindo sua alma (!), que para sua surpresa, se parece com um grão de bico! 

Sem contar mais, é óbvio que chega um momento em que ele quer sua alma de volta, e não vai ser simples resgatá-la. Ou seja, com todas as dores, angústias, dúvidas e trevas que temos no nosso interior, ainda assim, não é possível se viver pela metade, já que o “pacote completo” também inclui as pequenas e grandes emoções, sonhos, memórias afetivas e a capacidade de sentir e amar... como pode alguém viver sem isso tudo?

Tenho a tendência de separar as pessoas que conheço em dois grandes “times”: os cerebrais (onde a razão parece comandar) e o instável grupo dos emocionais, no qual me enquadro bem!  Estranho é que admiro profundamente os racionais, mas não imagino a possibilidade de confiar e gostar de alguém que não demonstre seus sentimentos de forma honesta, cristalina e calorosa. É a contradição humana, que enriquece (ou atormenta) os relacionamentos. Ninguém é exclusivamente “mental”, ou apenas “sentimental”, mas “temperar” essas duas qualidades é um grande desafio. 

Temos uma visão mais completa na cruz de funções de Jung: em um dos braços se opõem as funções do pensamento e do sentimento (que atribui valores); no outro braço, estão as funções da sensação e da intuição; todos nós temos as 4 funções operando, mas com o predomínio de uma função de cada braço. Quando uma função é mais “forte”, por exemplo, se o pensamento predomina sobre o sentimento, pode-se esperar que é na função do sentimento que a pessoa vai descompensar. 

A expressão “saber de cor” indica um caminho de equilíbrio possível, já que une o saber profundo com o que vem do coração, ou seja, quando amamos algo, não esquecemos; as duas funções operam juntas e temos o melhor resultado, com o entendimento passando também pelo coração.

Nem tudo se apreende de maneira racional, e isso tentam nos ensinar os monges zen-budistas, com aqueles paradoxos absurdos, os koans, que parecem forçar a mente a não-pensar, buscando outras vias de compreensão e iluminação; mas isso tudo soa tão nonsense para a mente cartesiana ocidental... como a minha.  ;P

Entre o pensar e o sentir, persigo o pensar enquanto me agarro ao sentir... e persisto na condição de dicotomia ambulante, por ora...

Como dizia Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

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