Gostaria de lembrar qual foi o professor que disse isso na faculdade de Belas Artes, mas nunca esqueci (porque entendi) as palavras: “a beleza da simetria é monótona, sendo a assimetria, muito mais interessante!”; por exemplo, quando alguém vai fotografar e apenas centraliza o objeto de maior interesse, sem seguir a regrinha dos terços, consegue um resultado bom, normal, regular, porém quase nunca, excepcional, com a qualidade de uma foto artística. Agora, uma imagem realmente instigante é aquela que é incomum...
É claro que acho maravilhosas a perfeita simetria dos cristais de neve ou a harmonia daquelas efêmeras mandalas de areia dos monges tibetanos, mas de maneira geral, noto que a “leitura” de figuras e imagens simétricas é mais fácil e rápida, para a maioria das pessoas. Contudo, nem sempre o mais simples é igualmente, o melhor... discordo do poeta John Keats, que dizia: “beleza é verdade”, já que o conceito de “beleza” é bastante individual e em alguns casos, a verdade não é bela... tampouco, fácil.
O que anda me cansando ultimamente é ver essas garotas todas com um visual tão pasteurizado e repetitivo dos modelos de beleza fashion: formas longilíneas (leia-se magérrimas, com o índice de massa corporal abaixo do considerado saudável!), cabelos lisos e semi -longos, sorrisos Colgate e raramente, usando óculos! E seguindo esse padrão imposto, todas se acham belas dentro de uma uniformização que empobrece a diversidade da beleza humana!
Uma pequena digressão: quando criança, meus pais me fizeram usar um aparelho bastante incômodo na arcada dental superior, por algum tempo, até que eu “acidentalmente” quebrei uma parte e nunca mais quis saber de outro. E não é que eles foram compreensivos e não me obrigaram a “enfileirar” perfeitamente os dentes que cumprem bem suas funções até hoje?! Acontece que os orientais costumam ter uma arcada menor que a quantidade de dentes que temos (aprendi com um ex-namorado dentista, que em nenhum momento me disse que eu deveria “endireitar” meu sorriso), daí que é natural termos os dentes meio desalinhados... desde que saudáveis!
Existe uma linha dentro da odontologia, com uma visão mais holística ou sistêmica, a Biocibernética Bucal, em que se relaciona a posição e função de cada parte de nossa boca com o resto de nosso corpo e história de vida. Então, se for apenas por vaidade ou modismos ditados pelo establishment das aparências, penso que é como descaracterizar aquilo que é único e próprio de cada um. Se fosse exigido de cada árvore do mundo, que seus galhos deveriam seguir um determinado padrão de alinhamento, sentido e forma, isso não seria considerado desproposital? E porque os seres humanos têm que ter um visual homogêneo?
Nada tenho contra o uso de aparelhos ortodônticos ou lentes de contato, desde que sejam opções feitas por uma questão de gosto pessoal, busca de maior conforto e/ou de melhoria da saúde. Na caracterização estereotipada de nerds ou de pessoas “feias”, é de praxe colocar aparelhos nos dentes e aqueles óculos enormes, de armação pesada e “fundo de garrafa”. E alguns geeks são meio gordinhos e desajeitados, contrapondo ao grupo dos “sarados”, outro paradigma de beleza e saúde, se considerarmos apenas o aspecto visual.
E não é uma ditadura de imagem e comportamento somente dos adolescentes, é mais um tipo de “esvaziamento” de valores humanos verdadeiros, em um nível globalizado... uma simetria de pensamentos rasos e escolhas superficiais e inconscientes... e estamos em ano de eleições, quando espera-se que todos saibamos selecionar nossos representantes e dirigentes com muito discernimento e responsabilidade. Não consigo ser otimista com relação a isso...
Em alguns casos, concordo que as cirurgias de correção estética são válidas, como nas crianças que nascem com lábio leporino ou orelhas exageradamente “de abano”, porque sou testemunha do quanto uma dessas diferenças se torna motivo de zombarias e discriminação por parte de outras crianças (que sabem ser cruéis) e o quanto isso afeta a auto-estima de uma psique fragilizada.
Mas as grandes cirurgias de correção deveriam ser éticas, na alma desses políticos que tanto nos envergonham! Aprender a pensar... esse deveria ser o foco de toda essa moçada que tem um desafio grande pela frente: viver neste nosso planeta já superlotado em algumas regiões e com os recursos naturais se exaurindo, mas ainda um belo (e único) lugar para se estar... quanto ao futuro, quero ser mais confiante!
Voltando à questão da assimetria ser mais interessante e dinâmica: na evolução do Universo e da Vida, tudo que acontece na Natureza, todas as transformações, são decorrentes de um desajuste, de uma desigualdade, um desequilíbrio, uma assimetria! Quando a Natureza tenta “consertar” esse desbalanço, há a redistribuição da energia, ocorre a movimentação que impulsiona toda evolução, desde o mundo das partículas ao macro universo; além disso, sem as transformações que vemos acontecendo no espaço, como teríamos a medida do tempo? A assimetria fomenta o Tempo!
Os cientistas continuam a sonhar e perseguir uma teoria unificadora, a “Teoria de Tudo” ou “Teoria Final”; é o que o Marcelo Gleiser (em seu livro novo: Criação Imperfeita) chama de busca da “ciência monoteísta”: a versão científica da crença religiosa da unidade de todas as coisas. Vários grandes nomes fazem parte deste time fantástico que dedicaram boa parte de suas vidas nesta busca: Kepler, Newton, Einstein, Faraday, Heisenberg.
No caminho, surgiu o conceito de “super-simetria”, da Teoria das Supercordas: cordas com supersimetria. Em vez de partículas pequeninas como o elétron, tubos submicroscópicos de energia que vibram freneticamente. Neste mundo supersimétrico, cálculos de interações entre partículas se comportam bem, com um tipo de partícula podendo se converter em outra, matéria em força e vice-versa, mas, com um detalhe importante: essa teoria só se torna consistente quando existem 10 dimensões (9 espaços e 1 tempo).
Bem difícil de imaginar isso tudo e mais difícil ainda é ter a comprovação científica... toda teoria de unificação se baseia em um julgamento estético de simetria matemática, assim como artistas e estudantes de arte ficam procurando encontrar a razão áurea ou a proporção divina em todas obras importantes ou na natureza... quem sabe com o sucesso dessas novas experiências do Grande Colisor de Hádrons, tenhamos pela frente, belas surpresas! Porque esse padrão de busca da Beleza e da Verdade dentro de uma Unidade, embora soe bastante sonhador, quase ingênuo ou utópico, me parece valer a pena!
Regularmente, ainda tenho minhas recaídas de vaidade pessoal, afinal, sou humana... já me peguei várias vezes olhando para minhas mãos e contando as pequenas cicatrizes que tenho: 5 na mão direita e 3 na esquerda, decorrentes de quase 27 anos mexendo com serras, limas-agulha, alicates, tesouras e facas; reparo também nas pintas, manchas de sol e queimaduras do uso de maçaricos de solda e fundição, cola quente, forno e fogão. Mas o interessante é que cada uma dessas marcas conta uma história minha, de algumas, lembro da data e das circunstâncias da época... e acabo ficando “orgulhosa” de ter esses sinais para lembrar-me de movimentos imprecisos que fiz, descuidos com os quais aprendi.
E lendo a coluna de astronomia de um amigo (Enquanto isso no Universo), achei graça quando ele diz para olhar as estrelas como uma brincadeira de criança, aquela de ligar os pontos e encontrar desenhos que nos são significativos. Porque eu costumo fazer isso olhando as estrelas ou as nuvens... ou as cicatrizes e pintas em minhas mãos, rs... e lembrei que quando criança, tive um amiguinho meio chato, que andava com uma caneta Bic na mão e quando a gente se distraia (ou fingia que se distraia), ele ligava os “pontos” (pintas) de nossos braços e desenhava suas próprias constelações... não lembro de seu nome, nem de seu rosto, mas espero realmente que tenha se tornado um grande artista ou astrônomo, que esteja feliz e tenha parado de perturbar garotas. ;P
Mas o que mais espero de mim mesma e de cada pessoa que passa pela Vida, é desenvolver a capacidade de olhar para a beleza única de cada um de nós, sabendo respeitar as diferentes perspectivas daquilo que chamamos Verdade.
PS: Fiz uma tremenda salada russa, rs... consegui misturar minhas cicatrizes, meus dentes, Teoria das Supercordas e razão áurea no mesmo texto! E ficou longo, o que tenho tentado mudar... poderia ter dividido em partes, novamente, mas estou com preguiça de reler o que escrevi e separar de forma coerente... sorry! ;P
O P.S. confirma o parágrafo inicial do post.Pq fazer um texto pequeno, com um único assunto, como mandam as normas? :)) Lembrei do Nelson Rodrigues e sua célebre frase "toda unanimidade é burra", pois é na diversidade que surge a inquietação do pensamento novo. Adoro seus posts, Lilian. Bjs
ResponderExcluirBeth Nakata
E eu adoro quando recebo um comentário de uma pessoa que considero muito e por quem tenho grande carinho e admiração! Obrigada! Beijo grande! :D
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