"A não ser que se tenha o caos dentro de si, não se pode dar à luz uma estrela que dança." - Nietzsche

sábado, 21 de novembro de 2009

A noite escura


Ecos do último blackout ainda reverberam em questionamentos; se a escuridão “física” traz transtornos e prejuízos reais, o que suscita em nosso interior anímico? Medo, dúvidas, constatação do tanto que ignoramos e o quanto temos a conhecer... Curioso é que blackout também é usado como sinônimo de perda da consciência, quando na verdade, aquietando um pouco as emoções conflitantes, olhar para a noite escura da alma nos possibilita o acesso a insights e reflexões importantes.

No princípio do século XVII, o astrônomo Kepler se perguntava: “Se as estrelas são sóis, por que a soma de suas luzes não ultrapassa o brilho do Sol?”
Ou seja, por que a noite é escura? Parece uma pergunta trivial ou inocente, mas na realidade, traz uma riqueza de informações. Se a resposta te interessa, converse com um astrônomo, pergunte para seu professor de física, ou pesquise e tenha o prazer e a alegria de encontrar respostas por si mesmo.Vou dar uma dica: a escuridão do céu noturno tem relação com a expansão do universo. E olhar para nosso mundo interior e tentar relacionar com os múltiplos eventos e informações do universo que nos cerca, leva a uma expansão da nossa experiência de vida.

Na mitologia grega, a deusa Nix (a Noite), era filha do Caos e geratriz do Éter (o Ar) e de Hemera (o Dia). Embora a noite pareça preceder o dia hierarquicamente, em nosso cotidiano, estamos tão habituados a este ritmo de alternância dos dias e noites que nem paramos para pensar que aí existe uma oposição, dia e noite nunca se encontram. Mas se pensarmos nessa oposição como um equilíbrio entre duas polaridades que se complementam, conseguimos ter uma visão mais integrada e holista, onde ambas as partes são importantes. E ter o cuidado de não dar a conotação de ruim e de trevas, ao pólo negativo da escuridão da noite. Segundo Jung, se tudo aquilo que rejeitamos, confinamos em nossa sombra, também é lá que encontramos vitalidade e a força criativa.

Quando conseguimos olhar para os pares de opostos sem associações estereotipadas do tipo: luz – verdade e bondade, escuridão – medo e malignidade, e nos colocamos numa postura livre de preconceitos, abrimos espaço para idéias e acontecimentos insólitos.

Exemplo 1: em seu livro “A dança do Universo”, o físico Marcelo Gleiser cita um diálogo curioso que teve com seu filho, quando este contava 7 anos:
Pai, existe alguma coisa que possa viajar mais rápido do que a luz (~ 300.000 km/s) ?
M. Gleiser: Não.
Filho: E a escuridão?

Exemplo 2: há uns 15 anos atrás, participei (como cobaia) de uma experiência de hipnose consciente, ou como prefiro chamar, de um exercício de imaginação criativa. O terapeuta colocou-me em um estado de relaxamento profundo e foi seguindo um roteiro que culminava em uma looonga escadaria, que fui subindo vagarosamente até que ele perguntou: onde vc está? Incrivelmente, eu me vi no meio de uma escuridão profunda, onde começaram a pipocar estrelas e mais estrelas... eu estava no meio do espaço sideral! Quando eu “retornei”, a primeira pergunta que ele me fez foi: o que você sentiu? Medo? Achei inadequada a pergunta dele, porque na verdade, eu me senti maravilhosamente bem, como se estivesse “em casa”, o mais próximo que cheguei de uma epifania, e nunca me esqueci deste momento simbolicamente rico de minha vida.

Se pensarmos que a maior parte do Universo consiste de energia escura (71,5 %) e matéria escura (24 %), sendo que nenhuma delas foi até o momento, identificada, e que a matéria comum, ou seja, gás (4 %) e estrelas, planetas e nós (0,5 %), somam apenas 4,5 % do que conhecemos, dá para ter uma idéia do quanto da enormidade da imensidão da escuridão do Universo temos ainda a buscar.

Para ninguém se sentir desencorajado, deixo mais uma passagem que ouvi: em um campo de refugiados, uma jornalista recém-chegada olha para aquela multidão de pessoas doentes, famintas e carentes das necessidades mais básicas da vida e fica desesperada. Então ela vê Madre Teresa de Calcutá com uma criança esquálida nos braços e a interpela: “Madre, olha só a situação ao nosso redor, isso tudo é terrível!” Resposta de Madre Teresa, olhando ternamente para a criança adormecida em seu colo: “Na verdade, isso é maravilhoso! Essa criança acabou de tomar uma colherada de leite!”.

No momento, eu acredito que nunca vamos compreender a totalidade do Universo, mas que é um sonho que vale a pena sonhar... cada pedacinho de informação nova que nos chega é um pontinho de luz a mais na escuridão, e de pontinho em pontinho, traçamos uma linha que faz crescer nosso entendimento.

E na noite escura da alma, não encontramos apenas nossos medos, dores e dúvidas, mas também a solidão boa, na companhia de nossos sonhos mais antigos, que segundo o fotógrafo Robert Kincaid, de “As pontes de Madison” (gostei da peça que está atualmente em cartaz, mas ainda prefiro o filme), são os melhores. Se os sonhos são antigos, estão lá na sombra... e se são os melhores, devemos resgatá-los.

Do Dalai Lama:




"I find hope in the darkest of days, and focus in the brightest. I do not judge the universe."





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Um comentário:

  1. Não é no silêncio que ouvimos nossa alma, é na escuridão, de olhos bem abertos.

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